Há 60 anos, Laika embarcava em viagem sem volta no Sputnik 2

Por Lívia Marra

Há exatos 60 anos, no dia 3 de novembro de 1957, Laika se transformava na cadela mais famosa do mundo, em uma missão que custaria sua vida. A bordo do satélite russo Sputnik 2, ela foi o primeiro ser vivo lançado ao espaço –e abriu caminho para as viagens espaciais tripuladas por humanos.

Recolhida das ruas e levada a um laboratório, a vira-lata morreu na pequena cápsula, pouco depois do lançamento.

“Pedi que nos perdoasse e chorei ao acariciá-la pela última vez”, lembra a bióloga Adilia Kotovskaya, 90, sobre o dia anterior ao embarque de Laika, segundo a AFP.

O Sputnik não tinha tecnologia para trazer a cadela de volta à Terra. Após a missão, autoridades soviéticas afirmavam que Laika havia morrido sem sofrer, ao receber uma droga, dias após o lançamento. No entanto, informações divulgadas em 2002 pela BBC com base em declarações de um cientista do Instituto para Problemas Biológicos, de Moscou, mostram que ela morreu vítima de superaquecimento e de pânico, apenas algumas horas depois da decolagem do satélite.

Para o líder soviético da época, Nikita Khrushchev, o objetivo da missão era demonstrar a superioridade da União Soviética sobre os Estados Unidos, antes das comemorações do 40º aniversário da Revolução Russa, em 7 de novembro.

“Suas nove voltas ao redor da Terra fizeram de Laika o primeiro cosmonauta do planeta, sacrificado em nome do êxito das futuras missões espaciais”, disse Adilia, que ainda se orgulha de ter ajudado a treinar animais para missões espaciais, segundo a agência de notícias, em Moscou.

Outros cães haviam sido enviados a altitudes suborbitais por alguns minutos “para verificar se era possível viver em um ambiente sem gravidade. Porém, “havia chegado a hora de enviar um ao espaço.”

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O TREINAMENTO

Para que se acostumasse ao voo espacial em uma cápsula de 80 centímetros de largura, os cães eram colocados em gaiolas cada vez menores, diz  a bióloga.

Além disso, ficavam em centrífugas que simulavam a aceleração de um foguete decolando, eram submetidos a sons que imitavam os do interior de uma nave e se alimentavam com “comida espacial”, a base de gelatina.

Laika tinha aproximadamente 3 anos e pesava 6 kg. Havia sido resgatada nas ruas de Moscou, assim como os outros “candidatos” a cosmonauta.

Segundo a especialista, as fêmeas eram as preferidas. “Se escolhiam cadelas porque não precisavam levantar a pata para urinar e, por isso, necessitavam menos espaço do que os machos, e sem pedigree porque são mais alertas e menos exigentes.”

AQUECIMENTO E MORTE

Laika foi escolhida por ser também dócil e ter um olhar ligeiramente curioso. E ganhou nome que deriva do verbo latir, em russo.

“Claro que sabíamos que iria morrer nesse voo devido à falta de meios para recuperá-la, inexistentes naquela época”, afirma a bióloga.

O Spuktini 2 foi lançado em uma madrugada. “Obviamente, quando o foguete se elevou, o ritmo cardíaco de Laika aumentou consideravelmente”, afirmou à AFP.

Agitada e com medo, a cadela recuperou seu ritmo normal depois de aproximadamente três horas. Mas não resistiu, em seguida, ao superaquecimento do equipamento. A temperatura da cápsula começou a subir por volta da nona volta ao redor da Terra e superou os 40ºC –Laika foi vítima da alta temperatura e desidratação.

A previsão inicial era de que a vira-lata sobrevivesse por oito ou dez dias. Apesar do superaquecimento, a rádio soviética continuava dizendo que Laika tinha boa saúde –o que fazia dela uma heroína.

Por muito tempo, Moscou sustentou a versão de que a cadela recebeu uma droga para evitar uma morte dolorosa. O Sputnik se desintegrou na atmosfera em 14 de abril de 1958.

Em agosto de 1960, um voo retornou à Terra com duas cadelas vivas –Belka e Strelka. Em abril de 1961, Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a ir ao espaço.

ARREPENDIMENTO

A história de Laika ainda repercute e virou até HQ . Mas, anos depois de sua morte, um dos envolvidos em seu envio ao espaço mostrou arrependimento.

“Quanto mais o tempo passa, mais eu me arrependo. Nós não tínhamos estudos suficientes sobre essa missão que pudesse justificar a morte da cadela. Ela foi condenada a morrer. Não deveríamos ter feito isso”, afirmou, em 1998, o responsável pelo primeiro programa soviético de envio de animais ao espaço, Oleg Gazenko, então com 79 anos.

O experimento serviu como base para outras missões em que seres humanos foram enviados ao espaço. Mas, segundo Gazenko disse à época a uma rádio de Moscou, a Guerra Fria –e não a pesquisa científica– foi o fator determinante para levar Laika ao espaço.

Com a AFP