‘Falo de cães porque possuo um cãozinho’; relembre texto de Drummond, morto há 30 anos

Por Lívia Marra

Nos 30 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, lembrados nesta quinta (17), a Folha publica especial sobre o poeta, e o Bom Pra Cachorro reproduz um de seus textos.

Defensor dos animais, Drumond teve um cachorro chamado Puck e um gato chamado Inácio. No especial, você pode ler mais sobre o amor do escritor pelos bichos.

A transcrição de “Para quem goste de cão”, publicado no jornal em 1º de fevereiro de 1948, preserva a grafia da época.

Boa leitura!

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“Para quem goste de cão

Carlos Drummond de Andrade

Olhos no título, dirá talvez o leitor! – Mas como é pretensioso este literato! Quer ter como público o mundo inteiro; pois todo mundo gosta de cães. E eu vos direi no entanto: escrevo para poucos, escrevo para raros. Meus leitores serão apenas três ou quatro indivíduos isolados na multidão. Porque os cães, depois das crianças, são os seres menos amados de todos.

Vejo o exército de proprietários de cães de luxo manifestar sua indignação com um movimento de língua nos dentes e um franzir de cara: o literato não os considera amigos do cão. Não, senhores proprietários, o humilde escritor não vos considera tal. E vejo também o grupo abnegado dos puericultores, dos pediatras, dos mil e um presidentes de associações de proteção à infância, que se erguem contra a afirmação do universal desamor à criança. Mas, queridos puericultores e presidentes, atentai nisso: se as crianças fossem amadas e respeitadas, não precisaria sequer existir, nem tampouco vossas instituições. O movimento em prol da criança significa precisamente, em nossa civilização burguesa, o desprezo e o geral desamparo à criança. Não se defende o que está protegido. Mas os meninos comem bombons! Os meninos vão ao cinema e andam de bicicleta! Nem todos. A maioria dos garotos do mundo sofre de moléstias intestinais sem ser por excesso de bombons; mas por falta de alimentação adequada (quando há alimento). Bicicletas e cinema são ainda fantásticas utopias para milhões; e muitos não saberiam nem ao menos concebê-las (penso em crianças mineiras da roça e em crianças chinesas). Mas não quero ocupar-me de crianças. Hoje falarei de cães, também abandonados e também maltratados.

Falo de cães porque possuo um cãozinho. Minha casa não comporta um exemplar maior. E hoje em dia os cães devem ter o tamanho de xícaras, se quisermos guardá-los conosco. O período agrário de civilização em que já vivemos no Brasil assegurava o gozo de largos espaços, onde podiam mover-se grandes cães. Não digo que fosse um bom período, porque todos os trabalhadores eram escravos, tanto o cão como o homem. Em todo caso, havia espaço para os animais de largo porte. Hoje nos sardinizamos em apartamentos racionados, e o cão precisa retrair-se, a começar no tamanho e a terminar na seleção dos locais onde verter suas naturais e descontroladas águas.

Possuo um cão, dizia, e ele é pequeno mas é cão, e cada partícula do cão condensa os atributos totais da espécie canina. Dinamarqueses e são-bernardos de alta estatura, vós não sois superiores aos mínimos luluszero e aos pequineses de bolso. Sois o mesmo animal, aquele mesmo cão da criação mitológica do mundo, de quem disse o poeta:

“Il est tous les chiens à venir
Et les voudrait mener à bien,
it est l’angoisse qui soupire
Tout en n’étant qu’un pauvre
[chien.

Il cache en lui tant de miracles
Qu’ll pose um peu craintif les
[pattes…
… Il est toujour lá qui re-
[garde

Pour ne pas etre un étranger.”

Há pois somente um cão, sob pêlos diferentes, focinhos múltiplos; o mesmo amor, a mesma doçura às vezes aprisionada na jaula de dentes ferozes, a mesma necessidade aguda de participação e de doação. Sou proprietário desse ser único e policopiado. E daí está a primeira miséria de tantas que se acumulam sobre o dorso macio e confiante desse nosso amigo; ele é propriedade de outros seres, também mamíferos, embora supostamente evoluídos. E se é coisa minha, teima em ser meu amigo e é. Nossa amizade com os cães repousa na idéia de que eles constituem patrimônio nosso, com nossos chinelos e nossas dentaduras. Que idéia farão os cães dessa idéia? Admitamos que eles não pensem, e a hipótese me conforta, pois sabemos o uso que o homem faz do pensamento para estabelecer com as coisas, os bichos e os outros homens relações de propriedade e domínio. (Já repararam no absurdo cômico da idéia de alguém ser “dono de uma árvore”, idéia que, entretanto, incorporamos no Código Civil e que só deixamos de concretizar porque cedeu lugar a outra mais ampla, de “dono da floresta” ou “dono da região”?) O cão vive, pois, sob regime de coisa possuída e até de mercadoria, mas ignora ou despreza esse regime; de qualquer modo, tolera-o, e é o amigo mais perfeito, aquele que vive em função do amigo e só por ele pode e sabe viver.

Otto Maria Carpeaux disse-me certa vez, em diante de Muril, sua cachorrinha austríaca, salva, com que dificuldade e carinho humano, da fúria nazista por ocasião do “Anchiuss”: “Acho que a grande tragédia do cão seria se não existisse o homem.”(Muril findou seus dias há pouco, sem motivos para duvidar da existência ou da simpatia humana). Porque aos pés do homem, diante de suas sagradas e implacáveis plantas, é que toda a vida do cão se depõe como uma oferenda. Para dormir como para morrer, é ali perto. Os outros animais prescindem desse calor humano. Parece-me justa a observação de Carpeaux, e por minha vez imagino a existência do homem sem, a seu lado, essa boca escancarada, de onde sai uma língua ofegante. Perderia numerosos de seus elementos poéticos, tornar-se sobretudo desconfortável sob muitos aspectos (que polícia e que fortaleza baratas, o cão!), mas seria uma vida possível, como já o foi. O cão, entretanto, oprimido pelo homem, consegue inventar tantos motivos de amar o seu opressor que a ausência deste o privaria da razão mesma de viver. Há dois séculos, navegantes espanhóis deixaram alguns cães nas ilhas descritas de Juan Fernandez no litoral chileno. Vinte anos depois, foram encontrar ali cães silenciosos, cães que não sabiam mais latir. Donde lembrar-nos o professor Angyone Costa que o cão começou a ladrar, quando domesticado, para comunicar-se com o homem, o qual, acrescento por minha conta, até hoje não adquiriu essa prenda a não ser em sentido figurado.

Aludi à domesticidade, e nela é possível enxergar a causa de todos os males que atingem a condição canina: O homem tirou de seu companheiro as asperezas do lobo, mas para convertê-lo em instrumento servil de trabalho, ou em peça de adorno. Do cão guardador de rebanhos ou simples vigia de armazém, chegamos ao cão enfeite mundano, perfumado e imbecil, passando pelo cão de caça, adicionado à espingarda e ao saco de provisões, no mecanismo de um desporto com que os homens se distraem no intervalo das guerras. Desses três usos do cão, o decorativo me parece o mais ignóbil, enquanto o venatório é o mais atroz, e o prático pode ser o mais triste, quando não compensado pelo sentimento de solidariedade e por uma espécie de ternura útil de companheiro.

De modo geral, na cidade, os cães experimentam hoje o tratamento frívolo. São cães de porcelana, de galalite, de lamé, quase que de piano, se não se vingassem por meios líquidos e outros. Passeiam na praia, presos a correntinhas, cumprimentam-se pelo focinho, mas não podem aproximar-se um dos outros senão no limite das respectivas correntinhas e da concordância dos respectivos “pedigrees”. Usam fitinhas e comem docinhos à base de baunilha salvo prescrição médica em contrário. Debruçam-se nas vidraças dos automóveis e aspiram suavemente os eflúvios das senhoras mais cheirosas e mais raras do Rio de Janeiro. Têm nomes literários, babás, e não sei se pequeninos telefones róseos para se amarem de um a outro apartamento. Mas já não são cães, no honrado e afetuoso sentido da palavra. São Ilustrações de revistas de modas, criações de madame Rubinstein em transe à Salvador Dali, adjetivos de cronista social voltando de Los Angeles, cocozinhos de açúcar-cândi e cereja glacê, mas não são propriamente cães, matéria viva e cordial, de persistência humildade e amor.

À vista do exposto, proponho um movimento pela selvagisação dos cães. Que voltem a ser ferozes e cães.

– Quando a idéia de uma taxa sobre os cães, em benefício dos homens…

– Não seria melhor taxar os homens, em benefício dos cães?

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Nota sobre o assunto – Desgostoso com a minha atitude na ABDE, no sentido de impedir, com outros escritores, que nossa entidade profissional degenerasse em instrumento de política partidária –o que conseguimos–, o Partido Comunista escalou o sr. Moacir Werneck de Castro para atacar-me. Sou grato pela escolha, que recaiu num moço, inteligente, afeiçoando às letras, e capaz de renovar em parte os clichés com que o partido pretende fulminar indiscriminadamente quantos incorram no seu desagrado. Assim, encontrou-se para minha atitude uma explicação original: eu teria agido por força de uma vocação política – (sic) frustrada. O que, em vez de confessar suas repetidas derrotas, procura disfarçá-las temperamentalmente. Daqui informo a quem interessar possa, que minha “carreira política” se limita a um único episódio: em agosto de 1945, o Partido Comunista ofereceu-me a candidatura a deputado federal por Minas Gerais. Recusei. Arranja-se, portanto, outra explicação para esse fato tão simples: um escritor fora dos partidos, que não se vendeu à reação nem aceitou os slogans simplórios do Partido Comunista; que assinou a democrática Declaração de Princípios do ll Congresso Brasileiro de Escritores, e que deseja a sua associação de classe preservada não só do facciosismo como da invasão de “escritores” alfabetizados à última hora para discutir os deveres da inteligência. Enquanto isso, não é sério atribuir-se uma “polícia de inteligência” aos que precisamente buscam subtrair a inteligência a qualquer espécie de polícia, tanto a Especial como a do Partido Comunista. — Carlos Drumond de Andrade.”