Projeto leva terapia com cães a refugiados em São Paulo

Por Lívia Marra

“É muito divertido. Tira o estresse”, diz Paulina*, 36, com seu sotaque angolano, após um grupo de voluntários e seus cães deixarem o abrigo para refugiados no centro de São Paulo.

Para ela, que chegou ao Brasil há dois meses com três filhos pequenos, a terapia com cães traz alívio para quem deixou tudo para trás e tenta se adaptar a uma nova cultura.

“Quando eles vêm, o clima na casa fica mais alegre”, afirma.

A visita é resultado de uma parceria entre o Inataa (Instituto Nacional de Ações e Terapia Assistida por Animais) e a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social.

A ideia é que os cães ajudem a integrar e levem bem-estar físico e emocional a essas pessoas recém-chegadas ao país.

O Bom Pra Cachorro acompanhou uma das visitas. No começo, parte dos abrigados –especialmente aqueles há pouco na casa– preferem ficar sentados, mais a distância. Mas logo cedem e também passam a acariciar os bichos.

Já as crianças não perdem tempo. Uma ou outra, mais tímida, prefere ficar no colo da mãe enquanto escova um cachorrinho. Outras se jogam no chão para brincar com os bichinhos.

Segundo a psicóloga Cristiane Blanco, do Inataa, um dos objetivos do projeto Melhor Amigo do Refugiado é promover a integração entre os moradores da casa.

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“As necessidades de trabalho são passadas pela casa. Perceberam o quanto as pessoas chegam mais fechadinhas, receosas em contato até entre elas mesmas, até por questões de orientação religiosa. Mas a ideia é que essa ‘turma do fundão’ comece a interagir”, diz. “Tem dado muito certo.”

Apesar da falante Paulina, outros moradores são de poucas palavras, mas não tiram os olhos dos cães.

COTERAPEUTAS

De acordo com Blanco, artigos apontam que terapias que não usam linguagem oral têm se mostrado mais eficientes em casos de estresse pós-traumático, como acontece com refugiados ou vítimas de violência.

No início de julho foi feita a segunda visita do projeto à Casa de Passagem Terra Nova –houve uma antes da assinatura do acordo, que deve durar seis meses e prevê uma sessão por mês.

Segundo a presidente do Inataa, Vera Abruzzini, algumas refugiadas já se esconderam atrás de um sofá, assustadas com o tamanho dos ‘coterapeutas’ golden retrievers.

“Diziam que no seu país não tinham animais assim em casa. Que cachorros grandes pertenciam às forças de segurança.”

Para ela, o trabalho dos cães com refugiados é eficaz também porque não depende de idioma. “Não precisa falar a mesma língua. Eles tocam, acariciam os animais”, diz.

De acordo com Abruzzini, a ONG –que também faz trabalhos em hospitais– tem 65 voluntários e cerca de 40 cães.

Mas, para um cão fazer o trabalho de coterapeuta (sempre acompanhado por responsável ou voluntário), precisa mais do que boa vontade do dono.

Os candidatos são submetidos a exames e testes para comprovar se têm vocação.

“Primeiro chega o voluntário, sem cachorro. Se ele quiser, o animal passa por testes para comprovar tolerância a sons e cheiros, por exemplo, para saber qual seria sua reação. O voluntário precisa estar preparado porque o bicho pode ser reprovado”, afirma Abruzzini.

REFUGIADOS

Para deixar os abrigados mais confortáveis, as conversas com os voluntários não incluem os motivos pelos quais as pessoas decidiram se refugiar.

A Casa de Passagem tem capacidade para 50 pessoas e atende famílias com filhos de até 18 anos, mulheres sozinhas ou mulheres com filhos.

A maioria vem de Angola e do Congo, mas há refugiados de outros países, como Síria.

Eles ficam até 6 meses no abrigo, que também oferece orientações e cursos. “Pode haver exceção. Teve uma família síria que ficou um ano. As outras crianças fizeram homenagem e foi emocionante quando foram embora”, diz José Roberto Mariano, gerente da Casa.

*A reportagem não publica nomes completos nem rostos para preservar os refugiados